quarta-feira, 16 de julho de 2014

ACERVO EM FOCO

COROA BORORO



            Constituída por 2.202 peças, a coleção etnológica do Museu Julio de Castilhos representa 16% do acervo da instituição. Nela encontram-se sobretudo itens relacionados às tradições arqueológicas Sambaqui, Humaitá, Umbu, Vieira, Taquara e Tupiguarani – todas relacionadas ao Estado do Rio Grande do Sul – entretanto também identificam-se peças oriundas de Goiás, Amazonas, Santa Catarina, Pará e Mato Grosso. É do Mato Grosso que se origina uma das peças mais notáveis da coleção: uma coroa elaborada pelos indígenas Bororo.
            Dentre os múltiplos grupos indígenas sul-americanos os Bororos destacaram-se no cenário das pesquisas etnológicas devido seu amplo contexto cultural. Uma característica predominante do grupo Bororo é sua dedicação ao ritos cerimoniais – a parte mais importante da vida comunitária - sendo esses marcados pela utilização de danças e adornos materiais.
            O ritual fúnebre, considerado a mais importante cerimônia Bororo, tem grande parte de suas práticas voltadas à figura mais temida pelos nativos da região: a onça-pintada. O animal tem em sua caça e abate um reconhecimento de bravura, e essa caça é estimulada pelas tradições de um complexo ritual. Nele é escolhido um hábil caçador do grupo oposto ao do indígena falecido para ser seu representante - conhecido como aroe maíwu (alma nova) ou iadu (companheiro) - e a ele é atribuída a missão de caçar uma onça-pintada, ato considerado uma forma de vingança pelo indígena falecido, uma vez que a morte é conferida ao espírito maléfico (bópe) e as onças são consideradas bópe. Matar o animal eliminaria o espírito mau, porém não se trata do fim dessa cerimônia: após o abate a carne é distribuída para o consumo e o restante (couro, dentes, garras e ossos) é destinado para a confecção de adornos. O couro é entregue para o indivíduo mais velho da família, e os dentes e garras são fixados em uma estrutura feita de fibra vegetal formando a coroa com a qual o representante presenteia os pais do morto. Assim, com a derrota do bópe está consolidada a vingança pelo falecimento de um membro do grupo Bororo.
            O Museu Julio de Castilhos possui duas coroas funerárias Bororo, ambas procedentes do Mato Grosso, tendo a maior as seguintes dimensões: comprimento da haste: 50,0 cm/ comprimento das unhas: 3,0 cm a 4,5 cm/comprimento dos cordões: 49,0 cm a 53,0 cm. Já as dimensões da peça menor são as seguintes: comprimento da haste: 41,0 cm/ comprimento das unhas: 0,8 cm a 2,5 cm/comprimento dos cordões: 52,0 cm a 57,5 cm – ambas as peças adquiridas dos irmãos Antônio e Octacílio Barbedo no ano de 1905.

Curadoria: Suzane Grassmann Külzer



RODA DE TROCA DE SABERES E FAZERES: LIGA DA CANELA PRETA (15/07/2014)
























segunda-feira, 16 de junho de 2014

Acervo em foco

“E... outros”:
Representação imagética de José Paulino de Azurenha o Leo Pardo.

O Museu Julio de Castilhos agregou nos seus 111 anos um acervo de aproximadamente 11.600 peças das mais variadas procedências e origens. Entre as várias coleções que compõe esse precioso acervo, sobressai a Iconografia (fotografias, pinturas e desenhos) coleção que tem na sua maioria registros únicos, desconhecidos pela maioria do público visitante e dos pesquisadores. Dentre os registros imagéticos captados pelos fotógrafos da cidade de Porto Alegre do século XIX, destacam-se os Irmãos Barbeitos, que registraram em suas lentes imagens femininas. No século XX  temos como referência registros inéditos importantes para a historiografia, como dois álbuns, totalizando 70 fotografias, do fotógrafo alemão Wolfang Harnisch Jr., intitulado Costumes Gauchescos, que revelam em cada página surpreendentes relatos imagéticos do Rio Grande do Sul na década de 1940. Harnisch Jr registra (sob a encomenda de Getulio Vargas) cidades-interior e a capital -, espaços de prática religiosa, o trabalho nas charqueadas de Bagé e nas minas de pedras preciosas, fachadas de prédios monumentais, e, com maior ênfase, a representação do homem do campo, o gaúcho e seus costumes. Inventariadas e sistematizadas, as fotografias do acervo são fontes para o estudo de sujeitos históricos e os mais diversos grupos.
O registro imagético intitulado Mário Totta e outros torna visível três cronistas e literatos da história rio-grandense, Francisco Antonio Vieira Caldas Junior (centro), Mário Totta (esquerda) Paulino Azurenha (direita). A procedência desta imagem remete-se à doação da família de Mário Totta, no ano de 1974, juntamente com outros objetos pessoais do médico, cronista, romancista e fundador da academia Rio-Grandense de Letras. A raridade deste importante suporte pode ser atribuída à união dos três escritores do cenário cultural porto alegrense, mas, também residem na instigante palavra outros, utilizada para a descrição da peça, no momento da sua catalogação no museu. Quem são eles? Francisco Antonio Vieira Caldas Júnior, ao centro da imagem, e provavelmente sua colocação no registro fotográfico, acima dos demais, remeta-se a um momento onde o seu destaque fosse importante, na fundação de seu jornal Correio do Povo no ano de 1895. Porém, Paulino Azurenha, “clicado” ao lado de Caldas Júnior, com seu corpo estático e olhar direcionado, foi um dos principais redatores do Correio do Povo, e, tem nessa imagem o único registro conhecido de um acervo público. Mas qual foi a trajetória de Paulino Azurenha?
José Paulino de Azurenha ou Paulino Azurenha, nascido homem livre, no ano de 1860 na capital, ainda período de escravidão no Brasil, tornou-se, como outros afrodescendentes, importante protagonista da comunidade afrodescendente portalegrense. Assim como o jornalista Paulino Azurenha, advogados, médicos, tipógrafos, literatos, juízes e engenheiro são sujeitos de uma nova historiografia do pós-abolição, suas trajetórias individuais e coletivas são objeto de vários estudos acadêmicos.
Em 1886, Paulino Azurenha contrai matrimônio com Maria Amelia da Silva na Igreja Nossa Senhora da Madre de Deus, e, tem como padrinho o afrodescendente Aurélio V. de Bittencourt , um dos mais importantes membros das Irmandades de Porto Alegre, articulador e secretário particular de Julio de Castilhos e Borges de Medeiros, e um dos idealizadores da imprensa negra portoalegrense por meio do jornal O Exemplo.
A trajetória de Paulino Azurenha no meio jornalístico dá-se como tipógrafo no Jornal do Commercio, porém, com a fundação por seu companheiro e amigo Caldas Júnior do jornal Correio do Povo, migra para este veículo de informação e torna-se um dos seus mais importantes redatores, assumindo várias vezes o posto de direção na  ausência de fundador. No ano de 1899 assume a coluna O Semanário (Correio do Povo) como seu único cronista, assumindo o pseudônimo de Leo Pardo, que para alguns de seus biógrafos seria uma de afirmação de sua identidade étnica.
Em 1897, escreve com Souza Lobo e Mário Totta, o romance Estrichinina, que versa sobre um pacto de morte sobre dois amantes. Anos após a morte prematura de sua esposa, Paulino Azurenha falece em 1º de julho de 1909, na sua residência na rua Gal. João Manoel n° 58. O desaparecimento, deste jornalista e literato, deixa uma lacuna nas crônicas do Correio do Povo, a sua forma de escrever, com ironia e sagacidade, marcou a vida cultural da pitoresca cidade de Porto Alegre do início do século XX. 

Jane Rocha de Mattos