História que Sangra, instalação leva protesto até a Praça da Matriz

Museu de História Julio de Castilhos transformou por um dia a escadaria da Praça da Matriz em memorial às vítimas de feminicídio Intervenção ocorreu no contexto do Mês da Mulher Uma intervenção artística na escadaria do Monumento a Julio de Castilhos, na Praça da Matriz, em Porto Alegre (RS), transformou o espaço público em um memorial temporário para mulheres vítimas de violência. Intitulada “História que Sangra – Do documento à presença/ausência”, a ação promovida pelo Museu de História Julio de Castilhos (MHJC), instituição da Secretaria da Cultura (Sedac), foi realizada no dia 11 de março, no contexto do Mês da Mulher, chamando atenção para o crescimento dos casos de feminicídio no Rio Grande do Sul.
Com foco em dar visibilidade à luta contra o feminicídio, a ação está alinhada às políticas públicas do governo do Estado sobre o tema, como o Programa Estadual de Proteção e Promoção dos Direitos das Mulheres, iniciativa que reúne um conjunto de ações para fortalecer a rede de proteção, prevenir a violência e promover a autonomia feminina no Rio Grande do Sul. O programa prevê investimento de R$ 71 milhões em novas ações, organizadas em quatro eixos estratégicos: governança, acolhimento, capacitação e desenvolvimento e enfrentamento à violência.
Sobre a intervenção artística No centro da escadaria, foram instaladas 80 mãos em gesso, representando as 80 mulheres vítimas de feminicídio registradas no Estado em 2025. Ao lado delas, mãos pretas, em sinal de luto recente, representaram as mulheres assassinadas em 2026 até a data da montagem. Concebida por servidoras e estagiárias do Museu, a instalação utiliza moldes de luvas cirúrgicas, material que remete tanto ao cuidado quanto à investigação – evocando a preservação da memória e, ao mesmo tempo, a dimensão de violência presente nos casos. Segundo a museóloga e coordenadora da ação, Doris Couto, a intervenção nasceu do compromisso institucional do MHJC com a reflexão sobre a história e suas permanências no presente. “O Museu preserva memórias. Quando mulheres são assassinadas, o que se perde não é apenas uma vida – é uma história que deixa de existir. Diante disso, silenciar também seria uma forma de apagamento”, afirma.
Também foram apresentadas fitas com desejos de futuro, escritas por mulheres que visitaram o Museu entre 2022 e 2023, durante atividades culturais da instituição. Nelas, aparecem palavras como “respeito”, “igualdade” e “liberdade”, visando estabelecer um contraponto entre as histórias interrompidas e os futuros desejados. Com duração de um dia, a instalação ocupou simbolicamente o espaço monumental sem qualquer intervenção permanente na estrutura. Todos os elementos são removíveis e serão instalados sem perfurações ou fixações no patrimônio histórico. Mesmo fechado temporariamente para restauro, o MHJC, por meio de ações como essa, busca manter sua presença no debate público sobre memória, história e questões sociais contemporâneas.