quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Novas Caras das Salas do Tempo


Novas Caras das Salas do Tempo

As salas frontais da histórica Casa de Julio de Castilhos receberam uma nova ambientação atmosférica com a inclusão de personagens ilustres em grandes dimensões. Apesar de não constituir uma exposição formal, proporciona ao visitante uma imersão maior no nosso maior acervo, a casa e sua arquitetura de época. Os homenageados são: João Cândido, Luis Carlos Prestes, Assis Brasil, senador Alberto Pasqualini, senador Pinheiro Machado e o marechal Hermes da Fonseca.



João Cândido, o almirante negro (1880-1969)

Nascido em Rio Pardo/RS, filho de escravos. Aos 10 anos foi mandado à casa do Almirante Alexandrino de Alencar, para ser educado. Aos 13, fez sua primeira viagem como aprendiz de marinheiro. Em pouco tempo tornou-se instrutor de aprendiz-marinheiro e viajou por todo o país.

Em 1908, foi à Inglaterra receber treinamento e acompanhar as obras dos navios encomendados pelo Governo brasileiro. O contato com marinheiros de outros países, cujo trabalho era valorizado, expôs a brutalidade das condições na Marinha Brasileira, na qual os castigos corporais, a má remuneração e o excesso de trabalho era rotina.


                                            A Revolta da Chibata (1910)

O Brasil era uma das maiores potências navais da época, mas o código disciplinar da marinha ainda previa castigos corporais para faltas disciplinares mais graves. O serviço obrigatório podia durar 10-15 anos, os soldos eram desprezíveis, as condições de alimentação e higiene eram as piores possíveis.

O estopim da rebelião iniciada na noite de 22/11 foi o açoitamento do marinheiro Marcelino Rodrigues, com 250 chibatadas. João Cândido, o Almirante Negro, assumiu o comando do Minas Gerais, vencendo na luta o comandante Batista das Neves, alguns oficiais e vários marinheiros.

                                                A Revolta da Chibata

Em novo levante em 9 de dezembro, João Cândido e companheiros foram trancafiados numa cela subterrânea na masmorra da Ilha das Cobras, onde 15 deles morreriam sufocados pela cal jogada na cela.

João Cândido sobreviveu e foi internado no Hospital dos Alienados no RJ, apesar dos médicos recusarem-se a atestar que estivesse louco. Julgado e absolvido em 1912, assim como os demais marinheiros sobreviventes. Pagaram alto preço, mas os castigos corporais foram banidos do código disciplinar da marinha. Expulso da Marinha, passou a trabalhar em pequenas embarcações e na Marinha Mercante, tendo grande dificuldade para manter-se nos empregos. Sua vida, a partir daí, foi acompanhada pela pobreza e pela tragédia: o suicídio de sua segunda esposa e a morte de sua filha.

                                                Revolta da Chibata

Apesar de seu importante papel para a modernização e profissionalização da Marinha Brasileira, poucas vezes recebeu homenagens. Aos 80 anos, ainda trabalhava no cais. Morreu de câncer em 6 de dezembro de 1969.



Luís Carlos Prestes       (1898-1990)

Nasceu em Porto Alegre, filho de família modesta. Graduou-se na Escola Militar no Realengo, Rio de Janeiro, em 1919.

Em 1922, participa das reuniões preparatórias ao ciclo das revoltas Tenentistas. No Rio Grande do Sul, aderindo ao movimento revolucionário, lidera o levante no Batalhão Ferroviário, do qual é subcomandante. Organiza a Coluna Prestes e percorre 13 estados do país, sem sofrer uma única derrota militar. Tal feito rende-lhe o título de “Cavaleiro da Esperança”.

Em 1930, recusa-se a assumir a liderança militar da Revolução de 30, por entender que se trata de simples substituição de uma oligarquia dominante por outra, posicionando-se a favor da reforma agrária e anti,imperialista, proposta pelo PCB.

A convite do governo da então União Soviética, vai morar em Moscou, em 1931, onde trabalha como engenheiro e dá prosseguimento aos estudos marxistas. Em 1934, é aceito como membro do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e retorna ao Brasil, clandestinamente, para articular a Revolução Socialista no país.

É aclamado presidente de honra da recém-criada Aliança Nacional Libertadora (ANL). Em novembro, com a ANL na ilegalidade, inicia-se a Intentona Comunista. A repressão desencadeada pelo governo cria condições para implantação de um regime ditatorial.
Em 1936, Prestes e sua esposa, Olga Benário, são presos, sendo ela deportada para a Alemanha nazista, sendo executada em um campo de concentração (1942). De 1936 a 1945, é mantido preso e incomunicável.

Com a redemocratização do Brasil, é eleito, em 1945, representando o PCB, o senador mais votado da história da República e deputado constituinte. Participa da Assembleia Constituinte. Em 1947, é decretada a ilegalidade do PCB. Com a cassação dos mandatos dos parlamentares comunistas, Prestes fica na ilegalidade por cerca de 10 anos.

Em 1980, rompe com o PCB, através da Carta aos Comunistas e viaja pelo Brasil, difundindo seus ideais revolucionários. Em 1989, nas eleições diretas pós golpe de 64, apoia a candidatura Leonel Brizola. Morre no RJ em 1990.



Joaquim Francisco de Assis Brasil    (1857-1938)

Foi um dos fundadores do Clube 20 de Setembro, que reunia estudantes gaúchos republicanos, entre eles Julio de Castilhos, na Faculdade de Direito de São Paulo.
Em 1882, elege-se o primeiro deputado do Partido Republicano Rio-Grandense (PRR) eleito para a Assembleia Legislativa.

Deputado nas Assembleias Constituintes Nacional e Estadual. Rompe com Julio de Castilhos por discordar da forma autoritária com que este presidia o PRR e pela imposição das doutrinas positivistas na Constituição Estadual. Atua como diplomata em Buenos Aires, Lisboa e Washington.

Em 1907, inicia a construção de um castelo em Pedras Altas, onde passa a residir, dedicando-se à agropecuária. Em 1908, participa da fundação do Partido Republicano Democrático (PRD), que agrupa dissidentes do PRR.
Retorna à vida pública em 1922, como candidato de oposição ao Governo do Estado. É derrotado por Borges de Medeiros, em eleições consideradas fraudulentas.
Em 1923, é chefe civil da revolução em oposição a Borges. Assina o Pacto de Pedras Altas. Retira-se com a família para um auto-exílio no Uruguai.

Revolução de 1923 foi o movimento armado ocorrido durante onze meses daquele ano no estado do Rio Grande do Sul, Brasil, em que lutaram, de um lado, os partidários do presidente do Estado, Borges de Medeiros (Borgistas ou Chimangos, que usavam no pescoço como distintivo ou característica o lenço branco) e, de outro, os revolucionários, aliados de Assis Brasil (Assisistas ou Maragatos, que usavam no pescoço como distintivo o lenço vermelho).

Álbum dos Bandoleiros

Revolução de 1923


               Filme "A Revolução no Rio Grande" de Benjamin Camozato

Em 1927, retorna ao Brasil e é eleito deputado federal pela Aliança Libertadora, formada pelo PRD, pelo Partido Federalista e por oposicionistas não partidários.
Com a vitória da Revolução de 1930 que levou Vargas ao poder, assume o Ministério da Agricultura do Governo Provisório, sendo também embaixador na Argentina em missão extraordinária.

Eleito deputado constituinte em 1933. No ano seguinte, por discordar da eleição de Vargas por voto indireto na Assembleia Constituinte, renuncia ao cargo.
Afasta-se em definitivo da vida pública, dedicando-se a sua fazenda em Pedras Altas.



Senador Alberto Pasqualini   (1901-1960)

Nasceu em Ivorá, à época distrito de Julio de Castilhos, descendente de imigrantes italianos. Em 1929, formou-se na Escola de Direito de Porto Alegre. Nesse período, dedicou-se ao estudo das principais doutrinas políticas, econômicas e sociológicas, o que o tornou um dos políticos mais preparados do Rio Grande do Sul.

Ingressou na carreira política através do Partido Libertador (PL). Foi um dos fundadores e o principal ideólogo do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), participando ativamente da política rio-grandense no período de 1945 a 1955.

Foi vereador em Porto Alegre e Secretário do Interior e Justiça no Governo de Ernesto Dornelles, em 1943. Em 1950, elegeu-se Senador da República. Nesse período, foi redator do projeto de criação da Petrobrás.

Fez oposição a Getúlio Vargas durante o Estado Novo, dedicando-se à elaboração teórica da doutrina trabalhista calcada no modelo inglês de Harold Laski. O programa foi exaustivamente discutido com todas as tendências de esquerda, o que levou à fundação da União Social Brasileira (1945). No ano seguinte, reaproximou-se de Vargas com a fusão da USB ao PTB.

Através de profundos estudos das doutrinas políticas e econômicas, Pasqualini possuía as ideias teóricas necessárias ao recém-criado PTB, que viriam a contribuir para a estruturação do Partido. Essa base doutrinária permitiu que o PTB gaúcho ocupasse um papel de destaque na política nacional.

Em 1948, analisando a realidade partidária brasileira, Pasqualini constatou que o movimento político se realizava somente em torno de objetivos eleitoreiros, na disputa pelo poder. Todos os partidos possuíam os mesmos conteúdos doutrinários, meramente formais. Lutou por criar um sentido ético na política nacional. Sempre foi sua preocupação dotar a política de bases científicas, um conjunto de objetivos definidos que orientasse a atuação das lideranças, levando o partido a cumprir sua maior função, ou seja, mobilizar a opinião pública de forma consciente e atuante.

Em 1956, após sofrer um derrame cerebral, afastou-se da vida pública.



Senador José Gomes Pinheiro Machado    (1851-1915)

Aos 15 anos de idade, alistou-se no Corpo dos Voluntários da Pátria e lutou na Guerra do Paraguai. Após dar baixa, em 1867, dedicou-se à atividade de tropeiro de gado e mulas, estudou Direito em São Paulo e foi um dos fundadores do Clube Republicano Acadêmico e do jornal O Republicano.

Retornando ao RS, atuou como propagandista da causa republicana, tornando-se o principal líder do Partido Republicano Rio-Grandense (PRR) na região Missioneira.
Proclamada a República, recebeu a indicação de Julio de Castilhos para senador constituinte pelo RS. Teve destacada atuação na Revolução Federalista de 1893, comandando cerca de 3.500 homens. Por ter assegurado a permanência dos republicanos castilhistas no poder, recebeu as honras de general.

Como senador, Pinheiro Machado chegaria ao auge do seu poder, interferindo na política nordestina e ajudando a eleger deputados que sequer conheciam os Estados que deveriam representar. Na presidência de Hermes da Fonseca, tornou-se uma espécie de “eminência parda”, tal a influência que exerceu.

Fundou o Partido Republicano Conservador (PRC), a primeira organização partidária de âmbito nacional cujos principais objetivos eram a defesa da Constituição de 1891 e a articulação de quase todas as “máquinas políticas” estaduais em apoio ao presidente da República.



Marechal Hermes Rodrigues da Fonseca    (1855-1923)

Nascido em São Gabriel, RS, estudou na Escola Militar do Rio de Janeiro. Influenciado por Benjamin Constant, aderiu ao positivismo e tornou-se membro da Maçonaria. Quando da Proclamação da República, era ajudante de ordens do marechal Deodoro da Fonseca, seu tio.

Como ministro da Guerra no Governo Afonso Pena, reorganizou o Exército e ampliou os efetivos, introduzindo o serviço militar obrigatório (1908). Em 1910, foi o candidato oficial à sucessão presidencial, derrotando Rui Barbosa. Nos primeiros dias de seu governo, enfrentou a Revolta da Chibata, liderada por João Cândido.

Seu governo foi marcado pela grande influência exercida pelo senador Pinheiro Machado e pela política salvacionista, que objetivava fortalecer a posição dos militares, sob pretexto de moralizar a vida política da Nação. O salvacionismo promoveu intervenções de tropas federais nos estados do Ceará e de Alagoas. A rigor, o que houve foi a substituição de certas oligarquias estaduais dominantes por outras, que se mostraram mais dispostas a apoiar o Governo central.

Terminado seu mandato, em 1914, foi eleito senador pelo Estado do Rio Grande do Sul. Não tomou posse, indo viver na Suíça por cinco anos.
Em 1921, assumiu a presidência do Clube Militar. Na sucessão de Epitácio Pessoa, cujo governo havia sido antimilitarista, o Clube Militar apoiou a candidatura de Nilo Peçanha contra o candidato da situação, Arthur Bernardes.

A vitória da situação, em meio a denúncias de fraude, desencadeou uma série de revoltas e pedido de recontagem de votos. Desacatando ordens do governo, Hermes da Fonseca conclamou os militares a não reprimirem as manifestações. Foi preso dia 2 de julho e o Clube Militar, fechado. Esse episódio esteve diretamente ligado à tomada do Forte de Copacabana, em 5 de julho, que abriu o ciclo das revoltas Tenentistas.
Libertado em janeiro de 1923, Hermes da Fonseca faleceu no dia 9 de setembro desse mesmo ano.