quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Uma exposição em debate de sua expografia

A construção da exposição "Da África ao Sul do Brasil" vem sendo pensada e elaborada por uma série de debates públicos em reuniões no auditório do Museu Julio de Castilhos chamadas de "Reuniões Abertas Museus e Africanidades" que reúne pesquisadores, estudiosos, movimentos sociais negros, ativistas culturais e estudantes para formulação de uma perspectiva de uma exposição que retrate a trajetória e o protagonismo dos afrodescentes ao sul deste país.
Estas construções perpassam outras instituições que se somam neste esforço de construir conjuntamente um diálogo capaz de ressignificar um discurso mais próximo da efetivação deste sentido da exposição, como contamos com a colaboração dos GT's Negros e Étnicos da ANPUH/RS, bem como atividades propostas pela Diretoria de Cidadania Cultural da SEDAC, UFRGS e outros. 
Podemos perceber ao longo das discussões que temas se correlacionam e intercalam nos debates, referenciando pontos entre a memória e atualidade, entre contextos e releituras, entre território e espaço, fragmentados e unificados dentro dos movimentos de resistência (quilombos), de processos de construções identitárias da sociedade, da religiosidade africana, da representação político-social, da diáspora... Enfim de um testamento e um testemunho que precisam ser contados no museu, e não ignorados nesta casa, que se instituiu como o "Museu do Estado", e também por isso, precisa exercer a cidadania cultural, que é emancipadora de um estado que deseja seres protagonistas de suas ações e reflexões.
Essas construções se solidificam em 2011 (Ano Internacional dos Afro-descentes instituído pela UNESCO) e a exposição em construção, abrirá em 2012, dando sequência a este trabalho até aqui realizado, bem como as parcerias já constituídas e quiçá ampliadas com a benção em Yorùbá (dialeto africano):
Que a água seja refrescante.
Que o caminho seja suave.
Que a casa seja hospitaleira.
Que o Mensageiro conduza em paz nossa Palavra. 
(NOGUEIRA, 2011. p.10)
Estamos forjando esta perspectiva. Uma perspectiva que requer retirar a exposição do período escravista por definitivo e ampliar o discurso da trajetória do povo negro para além desta temática específica escravocrata, trazendo uma intervenção construída por agentes que estudam, analisam e vivenciam esta questão histórica, reconhecendo nessas contribuições e nas pesquisas em que o setor técnico elabora a cada formulação de uma exposição deste museu, um olhar transversal conjunto, uma expografia de desconstrução e construção permanente, configurando um recorte que abarque a necessidade de uma  nova visão estética do negro no Museu Julio de Castilhos. Como afirma (DUBÉ, 1995. p.4) "Finalmente, hoy sabemos que la exposición interviene en el plano de la representación, ya que la reunión de objetos trata temas que revelan, al fin y al cabo, la parte inmaterial del todo reunido."
Assim, este processo continua desconstruindo e construindo novos olhares, novas pesquisas, que estas incidirão nas escolhas dos objetos e elementos que farão esta representação, mas com um olhar múltiplo, de novos agentes, que agora sugestionam o museu, acerca da sua "vontade de memória" e por isso, se desafiam a construir conosco esta representação.
Entretanto é assim das contribuições tanto material, quanto imaterial, que a memória coletiva se forma imaginação museal, se empodera e se forja em discursos museais, propõe densas reflexões e aborda com novas significações novas representações.
Um caminho árduo e desafiador tangencia esta tarefa pois "[...] quem escuta, escuta a partir de seu conjunto de aspectos culturais e de vida e muitas vezes escuta mensagens diversas daquelas que são pronunciadas[...]" (MICHELON  e TAVARES apud GRANATO, 2008. p.49) por isso, acreditamos que a construção em conjunto, é fundamental para que o enfoque seja o mais preciso possível, e a troca de conhecimentos com estes é enriquecedora para ambas as partes, formando para além de uma exposição, um processo de saberes e fazeres, que aproxima a comunidade do museu.
Que os desafios possam ser sempre alimentadores dos nossos sonhos, em propor uma construção abrangente que referencie o povo negro "Da África ao Sul do Brasil."

Joel Santana
Diretor do Museu Julio de Castilhos

Referências Bibliográficas

DUBÉ, Philippe. Exponer Para Ver, Exponer Para Conocer. Museun Internacional. París. UNESCO. 1995

GRANATO, Marcus. A Diversidade de Profissionais Que Atuam Em Museus e Suas Relações e Funções. in: Memória e Patrimônio: Ensaios Sobre a Diversidade Cultural. Org. MICHELON, Francisca. TAVARES, Fernanda. Pelotas. UFPel. 2008.

NOGUEIRA, Sidnei Barreto. Coisas do Povo Santo. Série Pensando a África no Brasil. São Paulo. SRS Editora. 2011.